Yehuda Amichai: "Rápido e Amargo"

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Ando cada vez mais apaixonado pela obra de Yehuda Amichai, um dos principais poetas da história de Israel. Um Carlos Drummond de Andrade de lá, permito-me dizer. Um dos grandes do século XX. Entretanto, há pouquíssima coisa dele disponível em português, de modo que resolvi postar, na medida do possível e da inspiração, alguma coisa aqui. Naturalmente, minhas traduções usam a tradução americana (nesse caso, de Assia Gutman) como ponte, porque o meu hebraico (ainda) não dá para tanto.

 

Rápido e Amargo

O fim foi rápido e amargo.
Lento e doce foi o tempo entre nós,
Lentas e doces eram as noites
Quando minhas mãos não se juntaram em desespero
Mas com o amor do teu corpo
Que se espreitava entre elas.
E quando penetrei você
Pareceu então que a felicidade suprema
podia ser medida com a precisão
da dor lancinante. Rápida e amarga.
Lentas e doces eram as noites.
O agora é amargo e opressor como o deserto --
"Devemos ser sensíveis" e maldições similares.
E conforme nos afastamos do amor
Multilplicamos as palavras,
Palavras e frases longas e obedientes.
Tivéssemos ficado juntos
Poderíamos nos ter tornado um silêncio.

 

(Yehuda Amichai*, "Quick and Bitter", trad. Rafael Leal)

 

Yehuda Amichai (1924-2000) foi um poeta israelense nascido na Alemanha, de onde emigrou aos 12 anos. Seus poemas são cheios de humor e pesar, e são escritos em hebraico coloquial, capturando a riqueza vernacular das ruas e do povo multifacetado de Israel, contribuindo numa dimensão incalculável para o desenvolvimento do idioma e da identidade judaicos.

Pais e Filhos - Parte IV

Sábado, 25 de Abril de 2009

- Você reclama do seu namorado, mas não faz ideia do que eu tive que aturar para poder ficar do lado do seu pai.

- Mas valeu a pena, mãe?

- Bom, valeu por você e pelo seu irmão.

- Mas e o amor, o romance, a felicidade conjugal?

- Não durou um ano direito, aí começaram as brigas, aquela fase do casamento em que tudo começa a dar errado e o amor bambeia. O nosso caiu, se esborrachou de tão bambo. Depois que o Rodrigo nasceu, a situação já estava insustentável e eu preferi voltar para a casa da sua avó com vocês dois a tiracolo.

- E você nunca mais viu meu pai?

- O cretino me mandou uma carta, uns anos atrás, dizendo que estava trabalhando numa companhia de navegação, era imediato num cargueiro que iria aportar aqui no Rio dali a uns meses e queria me ver. Mas eu nem respondi.

Silêncio constrangedor, mais para a filha do que para a mãe.

- Mãe, você precisa entender que só porque a sua história de amor não deu certo, nada leva a crer que a minha não pode dar. Nem todos os homens são iguais.

- Isso você ainda vai descobrir, - ponderou a mãe, do alto dos seus muitos anos de estrada.